terça-feira, 24 de julho de 2012

Cidades sertanejas foram isoladas por latifundiários

"Pensar com los ojos"... uma metodologia para inspirar.

Por Mariana Melo - mariana.melo@usp.br
Agência USP

O interesse dos latifundiários em manter as formações urbanas dispersas e desestimuladas, em detrimento às orientações da metrópole, contribuíram para impedir o adensamento da malha urbana no sertão nordestino nos séculos XVII e XIX. Além disso, as relações com Portugal, como o estímulo à formação de estradas durante o reinado de D. Pedro II, almejando dinamizar as trocas comerciais, refletiram na formação dos aglomerados urbanos e definiram a forma de certas vilas sertanejas.


Estes dados são da dissertação de mestrado do arquiteto e urbanista Esdras Arraes, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. O trabalho teve orientação do professor Luciano Migliaccio, da FAU, e considerou aspectos arquitetônicos, econômicos, históricos e sociais do sertão nordestino. O arquiteto viajou, entre janeiro e abril de 2010 e fevereiro de 2011, para vilas e aldeamentos missioneiros do Nordeste e estudou as formas da economia e as relações pessoais do sertão, submetidas à interferência da pecuária. Sua pesquisa passou pelas cidades de Oeiras e Jerumenha (Piauí); Icó, Crato e Barbalha (Ceará); e Ouricuri e Exu (Pernambuco),  entre outros lugares. Essas cidades possuem, ainda, alguma presença da arquitetura do Brasil Colonial e Imperial.


“Pensar com los ojos”


O método empregado na pesquisa, chamado “Pensar com Los Ojos” (pensar com os olhos), do crítico mexicano Damián Bayón, propõe que o historiador entre em contato com a realidade que estuda, de forma a assumi-la para poder entendê-la. Uma das estratégias para construir o lado empírico desta pesquisa foi, então, observar velhas fotografias das povoações, sentir os espaços públicos objetos do estudo e conceituar sobre o contemplado. “Por isso fiz um álbum com 1.400 fotografias, 500 delas tiradas por mim e as 900 restantes provenientes da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), do Arquivo Histórico da Arquidiocese do Crato, do site da Biblioteca Nacional, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do site da Biblioteca Nacional da França” diz Arraes.


O enfoque interdisciplinar do tema fez com que Arraes estudasse os grandes historiadores da economia brasileira, como Capistrano de Abreu. Além disso, investigou fontes primárias, como cartas régias, ofícios, autos, alvarás, comunicações entre câmaras municipais e a metrópole, além de mapas e plantas urbanas, providenciados pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e pela Cátedra Jaime Cortesão, também da USP.


Arraes procurou comparar a colonização feita por intermédio da expansão pecuária (“curral de reses”) e a consequente formação de aldeamentos missioneiros para atendimento dos interesses da Igreja (“currais de alma”). O termo curral, para ele, também lembra o “adestramento” civilizatório ao qual a população da época, principalmente os índios, estavam submetidos. A formação de aglomerados urbanos, neste caso, buscava doutrinação religiosa e também social, esta última numa tentativa de substituir a catequização dos jesuítas pelos valores seculares do estado português, conforme o ideal iluminista do Marques de Pombal, secretário de Estado do Reino de Portugal durante o reinado de D. José I (1750-1777).


“Como sertanejo, percebi que muitos estudos não focalizam o interior nordestino. O consenso de que o sertão é isolado é um equívoco causado pelo desconhecimento”, alega o pesquisador. O método utilizado em seu trabalho, “Conhecer para abrir os olhos”, se aplica, também, à desmistificação do isolamento sertanejo. “No sertão, as fronteiras são poucas. O ‘oxente’ de Pernambuco é o mesmo da Bahia e do Ceará.”

Disponível em:  Agência USP http://www.usp.br/agen/?p=103269
Acesso:  24 jul. 2012.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Revista EntreVer - Dossiê Formação de Professores e Ensino de História


A Entrever - Revista das Licenciaturas, publicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) voltada para a discussão e divulgação de "experiências formativas desenvolvidas no país no âmbito das práticas de ensino e estágios supervisionados", traz em seu segundo volume um dossiê cuja temática é a formação de professores/as e o ensino de História. 

Segue abaixo o sumário com os textos da edição, que também podem ser consultados no endereço: http://periodicos.incubadora.ufsc.br/index.php/EntreVer.


EntreVer, v. 2, n. 1 (2012): Formação de professores e ensino de História.


Sumário


Prefácio

Formação de professores e ensino de História
Andréa Ferreira Delgado, Clarícia Otto


Ensaios Discentes

O ensino de história para crianças: duas experiências de estágio nos anos iniciais do Ensino Fundamental
Raquel de Melo Giacomini, Daniela Eli, Juliane Mendes Rosa La Banca, Luiza Turnes
Índios, futebol e um estudante em formação: relato de uma experiência acadêmica
Rafael Benassi dos Santos
O uso das propagandas farmacêuticas do século XIX e XX como fontes para o ensino de história: um relato de experiência
Isaac Facchini Badinelli, Luis Fernando Junqueira
Reflexões sobre a utilização de pinturas históricas nas aulas de história
Aline Maisa Lubenow, Elison Antonio Paim
Uma chamada a cobrar: a escola e o celular em sua difícil convivência
Constantino Quarezemin Neto, Jeniffer Caroline da Silva, Viviane Cavalcante Pinto
O uso das diferentes linguagens na disciplina de Estudos Latino-Americanos do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina
Lucas Braga Rangel Villela
Construindo saberes: a relação docente/discente
Andrei Martin San Pablo Kotchergenko, Guilherme de Almeida Américo


Diários de Classe

Roteiro de visita guiada: “Desterro dos negros escravos e libertos – século XIX”
Joseane Zimmermann Vidal
A disciplina de História e a formação para a cidadania: uma experiência interdisciplinar
Geane Kantovitz
No jogo do reconhecimento: estágio supervisionado e identidade docente na formação de professores de História
Juliana Pirola da Conceição, Maria de Fátima Sabino Dias
O estágio supervisionado na EJA de Florianópolis: uma experiência
Suzana Bittencourt
Pesquisa-estágio em História: o processo de elaboração-tabulação-análise do questionário de conhecimento prévio
Márcia Elisa Teté Ramos


Artigos

Para além da reprodução: contribuições de Pierre Bourdieu para uma reflexão sobre formação de professores para o ensino de História
Nadia Gaiofatto Gonçalves
Ensinar História compreendendo os discursos sobre a sociedade cafeeira presentes nos livros didáticos: um estudo de textos e imagens em dois livros didáticos do Brasil contemporâneo
Marlene Cainelli, Talyta da Silva Selari
Poder e patrimônio histórico: possibilidades de diálogo entre Educação Histórica e Educação Patrimonial no Ensino Médio
Giovanna Aparecida Schittini dos Santos
Educação patrimonial e formação continuada de professores: uma experiência a partir da exposição “Pré-história nos vales dos rios Chapecó e Irani”
Elison Antonio Paim, Enelice Pansera, Mirian Carbonera
A canção vai à escola: perspectivas da Educação Histórica
Luciano de Azambuja, Maria Auxiliadora Schmidt
Tradição, passado e memória: o saber dos transeuntes do calçadão sobre a história da cidade
Sandra Regina Ferreira de Oliveira, Izadora Maleski Serrano Alves, Pamêlla Daiane Oliveira Costa
"Novas” e “diferentes” linguagens e o ensino de História: construindo significados para a formação de professores
Nucia Alexandra Silva de Oliveira
Pesquisando sítios arqueológicos: História e Patrimônio na sala de aula
Flávia Eloisa Caimi, Francielle Moreira Cassol


Entrevista

Entrevista com o professor Rodolfo Pantel
Lucas Söhn Albuquerque, Matheus Reiser Müller


Resenhas

Educação Histórica: um campo repleto de possibilidades de investigação
Flavia Gomes da Silva Riger
Documentários e animações produzidos no LAPIS para uso na Educação Básica
Henrique Luiz Pereira Oliveira

terça-feira, 8 de maio de 2012

Um em cada quatro professores da educação básica não tem diploma de ensino superior

Aproximadamente 25% dos professores que trabalham nas escolas de educação básica do país não têm diploma de ensino superior. Eles cursaram apenas até o ensino médio ou o antigo curso normal. Os dados são do Censo Escolar de 2011, divulgado este mês pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Apesar de ainda existir um enorme contingente de professores que não passaram pela universidade - eram mais de 530 mil em 2011 - o quadro apresenta melhora. Em 2007, os profissionais de nível médio eram mais de 30% do total, segundo mostra o censo. Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, os números são mais um indicativo de que o magistério não é uma carreira atraente.

“Isso mostra que as pessoas estão indo lecionar como última opção de carreira profissional. Poucos profissionais bem preparados se dedicam ao magistério por vocação, uma vez que a carreira não aponta para uma boa perspectiva de futuro. Os salários são baixo, e as condições de trabalho ruins” explica Leão.
A maior proporção de profissionais sem formação de nível superior está na educação infantil. Nas salas de aula da creche e pré-escola, eles são 43,1% do total. Nos primeiros anos do ensino fundamental (1º ao 5º ano), 31,8% não têm diploma universitário, percentual que cai para 15,8% nos anos finais (6° ao 9º ano). No ensino médio, os profissionais sem titulação são minoria: apenas 5,9%.

O resumo técnico do Censo Escolar também destaca que em 2010 havia mais de 380 mil profissionais do magistério matriculados em cursos superiores - metade deles estudava pedagogia. Isso seria um indicativo de que há um esforço da categoria para aprimorar sua formação. Mas o presidente da CNTE ainda considera "muito alto" o número de professores sem diploma universitário, especialmente porque nos últimos anos foram ampliados os estímulos para formação de professores nas instituições públicas e privadas de ensino superior. (EXTRA ON LINE)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Prêmio Nacional de Novelas Históricas - Fundação Pedro Calmon

Com a finalidade de tornar conhecido do grande público alguns dos fatos mais importantes da história baiana, a Fundação Pedro Calmon/SecultBA lança o edital Prêmio Nacional de Novelas Históricas – Bahia/2012, disponibilizando o valor de R$ 50 mil. O objetivo desse concurso é premiar com R$ 10 mil cada uma das cinco novelas inéditas sobre os episódios da História da Bahia: “O Dois de Julho”, “Revolta dos Malês”, “A Sabinada”, “Revolta dos Búzios” e “Guerra de Canudos”. Haverá também um sexto contemplado com Menção Honrosa e publicação. As inscrições estão abertas no período entre 23 de abril e 23 de outubro de 2012. O edital completo está disponível no site www.fpc.ba.gov.br.
Compreende-se como novela um texto narrativo em prosa, intermediário entre o conto e o romance. Um relato com mais ou menos 30 mil palavras, que, composto, resultaria num livro de 80 a 130 páginas. Na tradição da literatura de língua portuguesa, consideram-se novelas O alienista, de Machado de Assis, Alves e cia., de Eça de Queiroz, Jana e Joel, de Xavier Marques, A morte e a morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado, A hora da estrela, de Clarice Lispector, e O outro gume da faca, de Fernando Sabino.
Episódios:
Um dos mais importantes acontecimentos da história da Independência do Brasil, o “Dois de Julho” é o ápice das lutas e da resistência às tropas portuguesas na Bahia. Em 1823, o povo baiano conseguiu expulsar os colonizadores, findando o processo de independência iniciado em 1822.
A “Revolta dos Malês” foi um movimento que ocorreu na cidade de Salvador entre os dias 24 e 25 de janeiro de 1835. Teve como personagens principais os africanos islâmicos (malês) que exerciam atividades livres. Esses africanos libertos sofriam muita discriminação pela cor, raça, condição social e religião.
O episódio “A Sabinada”, ocorrido em 1837, foi um movimento feito por militares e integrantes da classe média da Bahia, tendo como principal liderança Francisco Sabino Vieira. Os revoltosos eram contrários às imposições políticas e administrativas exercidas pelo governo regencial.
Em 12 de agosto de 1798, Lucas Dantas de Amorim Torres, Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, Manoel Faustino Santos Lira e João de Deus do Nascimento convocaram a população de Salvador a livrar-se do domínio português, fundando a “República Bahiense”. Essa tentativa de revolta ficou conhecida como a “Revolta dos Búzios”.
Em novembro de 1896, no sertão da Bahia, foi iniciada a “Guerra de Canudos”, conflito civil que durou quase um ano. Devido à força adquirida, o Governo da Bahia pediu o apoio da República para conter o movimento formado por pessoas de forte religiosidade e sertanejos sem emprego, sob o comando do beato Antônio Conselheiro.

Fonte: http://www.fpc.ba.gov.br/node/1808. Acesso em 20 de abril de 2012.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fundação Carolina publica estudos sobre afro-descendentes na América Latina

Os relatórios dos dois estudos - "Los Afrodescendientes frente a la educación" e "Educação e População Afro Descendente no Brasil: Avanços, Desafios e Perspectivas" - podem ser baixados seguindo os links ou acessados na página da própria instituição: http://www.fundacioncarolina.es/es-ES/Paginas/index.aspx

La FC publica dos estudios sobre los afrodescendientes en América Latina

En el año 2011, Año Internacional de los Afrodescendientes, la Fundación Carolina puso en marcha un programa de investigación del Centro de Estudios para América Latina y la Cooperación Internacional (CeALCI) con el objetivo de analizar la situación de los afrodescendientes en el contexto de la agenda educativa renovada para la región. El programa de investigación se compone de dos partes que a su vez se corresponden con dos estudios: "Los Afrodescendientes frente a la educación""Educação e População Afro Descendente no Brasil: Avanços, Desafios e Perspectivas".

En la primera parte de la investigación se analizan los siete países de América Latina que registran la mayor concentración de afrodescendientes y que disponen de datos censales desagregados por etnia y raza, es decir Brasil, Colombia, Costa Rica, Ecuador, Honduras, Nicaragua y Panamá. Por su parte, el segundo informe es producto de un estudio llevado a cabo por la Unidad Académica de la Facultad Latino Americana de Ciencias Sociales (FLACSO) Brasil por encargo directo de la Fundación Carolina con el fin de enriquecer este análisis regional profundizando en el país latinoamericano con la mayor población de afrodescendientes.

El principal problema al cual se enfrentan tanto la investigación sobre el tema de la situación de la población afrodescendiente, como el desarrollo y la implementación de políticas públicas de equidad dirigidas a este colectivo, tiene que ver en gran medida con la debilidad en el registro de datos desagregados por raza. Por esta razón organismos internacionales, tales como la Comisión Económica para América Latina (CEPAL), la Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura (OEI) y la Secretaría General Iberoamericana (SEGIB), están promoviendo el desarrollo de estadísticas sobre población afrodescendiente. Sin ello no será posible una intervención pública eficiente para esta población que todavía se ve afectada por una discriminación histórica en la mayoría de los países latinoamericanos.

A esta debilidad en los registros, se suma un cierto recelo, por parte del público en general y de las instituciones públicas, a reconocer la existencia de desigualdades raciales e incluso racismo hacia los afrodescendientes e indígenas vigente en la mayoría de los países de la región, disimulado detrás de una "democracia racial" mítica.

Se hace patente la necesidad de propiciar un debate abierto sobre las desigualdades que las poblaciones afrodescendientes enfrentan hoy en día, sobre la necesidad de fomentar culturas abiertas a la diversidad e introducir medidas específicas para corregir las mismas. Todo ello implica un fuerte compromiso político al más alto nivel, que se traduzca además en inversiones y políticas concretas y efectivas.